O Bicho Inventor

“O homem é um grande inventor de coisas,
e a história do homem na Terra não passa da história das suas invenções com todas as consequências que elas trouxeram para a vida humana”

Monteiro Lobato, História das Invenções, 1935

O que impulsiona o homem a inventar? A curiosidade? O desejo? A necessidade? Como surgem a imaginação, as ideias, a tendência a mudar, transformar, inovar?

Essas perguntas pretendem construir o entendimento de que, desde o início, o homem se utilizou de dois impulsos básicos: o reprodutor, baseado na memória e o criador, ou combinador, que não se limita a reproduzir fatos ou impressões mas cria novas imagens e ações. Além da natureza, de que fazemos parte, tudo o que nos rodeia é cultura, produto da relação desses dois impulsos. Assim, o processo de criação é resultado das possibilidades de combinação do antigo com o novo.

Esse processo não é, portanto, privilégio de pessoas especiais, dotadas de talento, artistas reconhecidos e cientistas famosos, mas característica de todo ser humano que imagina, combina, modifica e cria. Os dois impulsos, reprodutor – vindo de experiências anteriores – e o criador – decorrente da fantasia, da imaginação – se apoiam mutuamente e são influenciados pela experiência pessoal, pelo contexto histórico, pelo ambiente, o que nos faz acreditar que nenhuma criação é individual. É portadora do legado de todas as invenções e criações humanas anteriores.

Ninguém sabe quando foi, exatamente, que os mais antigos ancestrais do homem descobriram meios de gerar fogo e quando desenvolveram a linguagem. Mas a partir desses dois importantes acontecimentos o homem expandiu suas possibilidades de criação e deu um passo significativo no seu processo de evolução. O fogo foi, talvez, o marco mais importante para evolução tecnológica, para a busca de instrumentos externos ao seu corpo que ampliassem sua capacidade de ação no mundo à sua volta. A palavra, o poder de se comunicar, de organizar seus pensamentos e sentimentos através de símbolos representou o elo definitivo entre o mortal e o divino, entre o concreto e o imaginário, entre o eu solitário e o coletivo.

É nessa interação com o outro que todo o conhecimento foi se construindo, provocando consequências diversas à vida humana e trazendo inúmeras conquistas. Mas não podemos fazer um elogio acrítico à evolução e ao progresso. “O homem sempre viveu em guerra, de modo que as invenções para melhorar a “mão que mata” foram inúmeras”. (Lobato)

Além dos aspectos destruidores, precisamos levar em conta que o próprio desenvolvimento científico não se dá linearmente, na acumulação causal dos acontecimentos ou na superioridade do presente e do futuro em relação ao passado. As elaborações e os ideais científicos são descontínuos. As teorias não são consequência de uma forma mais evoluída, mais progressiva ou melhor de fazer ciência, e sim “resultado de diferentes maneiras de conhecer e construir os objetos científicos, de elaborar métodos e inventar tecnologias” (Chaui)

Esperamos, com esse Projeto, mostrar às crianças que é preciso convocar o homem a assumir sua responsabilidade nas relações diretas com os outros e com o meio ambiente com os quais interage produzindo cultura. Pretendemos fazê-las compreender que o contexto que faz emergir cada inovação e criação humana, assim como suas possibilidades de transformação do mundo, é resultado de ações coletivas. Com isso acreditamos favorecer uma atitude de maior comprometimento com o outro e com o planeta que nos abriga, além de ampliar o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo que nos cerca.

Este texto foi elaborado com a colaboração de vários autores, alguns citados, e com a absorção do texto de Wladimir Weltman, pai do Fransciso Weltman, nosso aluno, no fórum de pais da escola.